domingo, 20 de maio de 2012

Solucionática: o impossível se faz possível no futebol em 2012

Lucas Morais

Termina mais uma temporada na Europa. A temporada 2011-2012 foi um presente enorme para os fãs da bola.

O Athletic Bilbao, maior e mais representativo clube do País Basco e a luta por independência deste povo face ao Estado monárquico espanhol, fez uma campanha regular na Liga Espanhola e disputou a final da Liga Europa com sua histórica “filial”, o Atletico de Madrid, que foi fundado por estudantes bascos em Madri em 1903. O time basco, fundado em 1898, somente com jogadores de origem basca e sob o comando de “Loco” Bielsa, perdeu a final após uma brilhante campanha, que contou, inclusive, com a vitória sobre um Manchester United completo, com todos seus titulares em campo, sob comando de Alex Ferguson, para um Atletico comandado pelo matador colombiano Falcão. Doloroso para os bascos, mas deu a lógica: o Atletico havia feito uma campanha invicta e com maior número de gols na Liga Europa, além de boa uma campanha na Liga Espanhola.
No Estado espanhol, o incrível Barcelona do argentino Lionel Messi, dos meias catalães Xavi Hernández e Andrés Iniesta e comandados pelo também catalão Pep Guardiola, entrou meia-bomba na temporada, sem Villa, contundido, com várias transições, como o retorno do meia catalão Cesc Fábregas e a introdução do atacante chileno Alexis Sánchez, com sua zaga frequentemente machucada, com muitas limitações neste setor, mas, ainda assim, este time chegou às semifinais da Liga dos Campeões da Europa, levou Messi a bater o recorde de La Liga, com 50 gols, mas ficando atrás e perdendo em casa para o arquirrival, o Real Madrid, que também morreu nas semifinais diante de um resistente Bayern.


Se os clubes comandados por José Mourinho e Pep Guardiola passassem, poderiam ter disputado entre si a final em um inédito El Clasico na final da Liga dos Campeões. Para compensar, o time de Madri levantou a taça espanhola alcançando o recorde de 100 pontos, com mais uma ótima campanha do goleiro espanhol Iker Casillas e com um tridente ofensivo imbatível, com o português Cristiano Ronaldo, o francês Karim Benzema e argentino Gonzalo Higuaín tendo feito 82 gols na temporada, com o meia alemão Mesut Özil alternando com o brasileiro Kaká e o argentino Di María no meio campo.

Na Itália, a Juventus, invicta, volta a ser protagonista e retorna à Liga dos Campeões, na qual participou mais de vinte vezes. Trata-se de um time forte, complicado, cascudo, encardido, mas com muita qualidade, com Vucinic, Pirlo, Matri, Alessandro Del Piero e o goleiro De Sanctis em destaque. Empata muito e tem o hábito de ganhar com um gol de diferença. Virada é goleada. Essa é a Velha Senhora se reerguendo. Inclusive, disputou o jogo final pela Copa Itália contra o Napoli, do eslovaco Hamsik, do atacante uruguaio Cavani e do atacante argentino Lavezzi, que, ao menos, levantaram esta taça neste ano e salvaram a lavoura, além de quebraram a série invicta da Juve. Pela Liga dos Campeões da Europa, o time da cidade de Nápoles foi eliminado pelo atual campeão, Chelsea. Com um elenco envelhecido, o Milan, apesar da artilharia do sueco Zlatan Ibrahimović, morreu nas quartas de final da Liga dos Campeões diante de um Barcelona envolvente, mas enfrentou com muita dignidade. No campeonato italiano, disputou até o final, mas não foi capaz de se recuperar dos tropeços, igualmente à Internazionale de Milão que, ao final da competição, ressuscitou parte de seu futebol, mas também precisa de renovação em seu elenco. A Udinese mais uma vez encostou entre os primeiros colocados.

Na Alemanha, deu, mais uma vez, Borússia Dortmund, com mais uma brilhante atuação do meia japonês Kagawa, de saída para o Manchester United, o jovem atacante Mario Götze e o atacante paraguaio Lucas Barrios. Campanha impecável e irretocável na Bundesliga, enquanto o Bayern, vacilante, ficou com o vice-campeonato. Schalke de Gelsenkirchen e Borussia Mönchengladbach fizeram boas campanhas e revelaram mais jogadores, como o excelente atacante alemão Marco Reus, do Mönchengladbach.

Na Inglaterra, o “novo rico” Manchester City sofreu muito ao ver por duas vezes sua campanha, que dependeria somente de si mesmo, já que estava na liderança, ir para as mãos do maior rival durante a Premiere League, mas, após 44 anos, o meia marfinense Yaya Touré, o atacante argentino Kun Agüero, o atacante italiano Mario Ballotelli, o meia espanhol David Silva, o meia francês Samir Nasri, comandados por Roberto Mancini, dão o título ao Manchester City, tirando finalmente o título do rival Manchester United que, ano sim ano não, levanta a taça, em um jogo desesperador contra o Queen's Park Rangers na última rodada, quando sofreu dois gols e precisou fazer uma heróica virada no último lance, dos pés de Balotelli para Agüero, que sofreu falta mas insistiu e conseguiu o inacreditável, inenarrável, fantástico e decisivo gol.

A final: F.C. Bayern München vs Chelsea F.C.

O jogo foi muito estudado, como um xadrez, com ambos times anulando as principais jogadas. Robben não decidiu. Mario Gómez, sempre muito marcado, não se libertou e teve poucas chances. Müller, que não vinha bem no jogo, fez um “segundo Mário Gómez” e conseguiu cabecear ao chão em frente de Cech, que não conseguiu a defesa.

O marfinês Didier Drogba, que parece mesmo ter nascido para decisões, em mais uma partida histórica fez o gol do empate aos 88 minutos, no alto, numa bola de escanteio, quando a partida já estava encaminhada em teoria e a torcida do Bayern comemorava. Depois deste gol, Drogba comete um pênalti infantil no atacante francês Frank Ribéry, e o tcheco Peter Cech, mitológico, acerta o lado, defende o pênalti do atacante holandês Arjen Robben e coloca o Chelsea.

Recorreu, jogando fora, a um futebol defensivo e cauteloso. Armou o ferrolho. Contra o Barça, deu certo. Naquele jogo contou com muita sorte, marcação, nervosismo e a categoria de Ramires e o inesquecível gol de Fernando Torres, no Camp Nou.

Pênaltis

Lahm fez. Mata, não. Gómez fez e David Luiz foi categórico. Neuer e Cole fizeram com tanta perfeição que, enquanto a bola não encontrava as redes, a impressão era de que ambos errariam. Emoção total a cada décimo de segundo. Eis que, Schweinsteiger, que se recuperou há poucos meses de uma grave lesão no joelho e esteve muito bem por todo esse jogo, manda na trave, com paradinha antes, tentando tirar do Cech. A torcida do Bayern desaba. Então, Drogba portando a incontingência do gol, mandou forte no canto, canto oposto do escolhido por Manuel Neuer. Decisivo, afinal, foi sua vida e sua razão de viver em jogo.

Ramires, que não pôde jogar a final pelo Chelsea, por estar suspenso, cobriu-se com a bandeira do Brasil já pensando em quando seu filho poderá assistir seu mágico gol e entender o que representou aquela virada, com um a menos, sobre o Barça, no Camp Nou, na vitória da semifinal que habilitou o Chelsea a disputar a taça com o Bayern.

O meia brasileiro confessou, em entrevista aos repórteres da ESPN Brasil, que assiste todos os dias seu gol encobrindo categoricamente o goleiro catalão Victor Valdés.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Leiteria - Nine out Ten

"Walking down portobello road to the sound of reggae...

I'm alive..." *

É uma sensação, um grito, algo dito como que pela pele. Não sei, algo me diz que o Fluminense vencerá. Estamos sem o 9 e o 10. Estamos sem o 5, sem o 8. Estamos com os não vistos, os sumidos, os desacordados, aqueles que saem do porão, como Mickey em 1970, como Tartá em 2010, como Adriano Magrão em 2007.

É uma sensação, um espirro de presunção cassândrica.

Parece que teremos diante de nós um Golias, e hoje somos um David, um David ferido, não por ser fustigado pela mídia, pelos rivais, pelo desprezo por nosso modo de jogar, por nossa cara de alvo pintada na ponta de um canhão calibrado, mas por termos partes nossas, partes fundamentais, na convalescênça que a violência adversária acabaria nos colocando.

Parece que nove entre dez analistas, nove entre dez rivais, nove entre dez argentinos, nove entre dez torcedores nos vê como derrotados, como que no fim de nossa estrada.

E isso me lembra 2007 e isso me lembra Petkovic dizendo que se o Fluminense não vencesse em 2010 jamais venceria, me lembra 2008 quando nove entre dez habitantes do planeta bola nos dizia que jamais o Fluminense venceria um campeão da Libertadores.

Isso me lembra que estamos em Buenos Aires com Wagner e He-Man, como já tivemos Adriano Magrão, Tartá e Mickey, como já fomos patinhos feios, como quem não quer nada.

Hoje o Boca é Favorito e isso é bom.



* Trecho inicial da Canção "Nine Out Ten" De Caetano Veloso, gravada no disco Transa...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Leiteria - Estadual não se comemora, se coleciona

Por Gilson Moura Henrique Júnior

Parece arrogância e talvez até seja. Ainda mais diante do fato de que ganhamos dois apenas, na última década, um apenas na anterior e esse é nosso primeiro na década atual.

De nossos inescapáveis 31 títulos estaduais, 27 foram ganhos entre 1902 e 1985, de lá pra cá pouco tivemos sucesso na conquista deste torneio que perde em importância mais ou menos no decorrer deste mesmo período.  

Pode ser mera coincidência, pode ser, mas é interessante notar que enquanto ganhávamos estaduais à vera, a rodo, a Dupla Flamengo e Vasco ganhava Brasileiros e Libertadores e cresciam em tamanho de torcida e impacto em renda, ganho de patrocínio e dinheiro de TV.

Depois da descida ao inferno e da subida na base do orfeísmo carpado, demoramos três anos para a primeira decisão de estadual e primeiro titulo, quatro para a segunda decisão  (Perdemos para o Fla em 2004), cinco para o segundo título e 13 para o terceiro titulo Estadual em 2012. No entanto chegamos à uma final de Copa do Brasil (2005) , uma final de Libertadores (2008), uma final de copa Sulamericana (2009), conquistamos uma Copa do Brasil (2007) e  um Brasileiro (2010) da fuga do inferno para cá.

Aproveitando nossa mudança de foco para fora do estado o Flamengo conseguiu nos ultrapassar na hegemonia regional, porém ampliamos nosso impacto no âmbito nacional e internacional sendo cogitados sempre como equipes que se não são favoritas não são desprezadas, sempre se classificando no minimo para as oitavas de final de torneios internacionais e sendo favoritos todo ano para o Brasileiro.

Quer dizer que ganhar o estadual é ruim? não, não acho ruim, mas é insuficiente, não coça, não muda o patamar do Flu, que coleciona títulos  locais e tinha sua hegemonia até 2008. O foco da torcida e do clube é sem dúvida o titulo da libertadores e/ou do Brasileiro.

São títulos para nos manter no caminho de um protagonismo nacional, por baixo, e sendo sempre tidos como referência no exterior. Foi o caminho que levou o SPFC a um projeto de décadas que culminou em três libertadores e três mundiais, colocação como favorito a títulos nacionais e internacionais quase sempre, em um ciclo só interrompido nos 3 últimos anos de uma entressafra ocorrida pós tri-campeonato Brasileiro em 2008. Foi o caminho que tirou o Inter de um clube estagnado a um gigante com duas libertadores e uma torcida mala que acha que o mundo começou em 2006.

A conquista estadual nos dá mais a medida de nossos rivais diretos e de que temos time para a disputa do Brasileiro, com ajustes, e reduz a pressão idiota de conselheiros e dirigentes para a conquista do estadual do que nos dá algum tipo de "gás" ou muda o foco para os jogos decisivos da Libertadores.

Conquistar o estadual em cima do Botafogo foi mais uma dica para o rival se reforçar do que um ganho para nossa equipe, que acumula mais uma taça para nossa coleção de estaduais e ainda perde jogador importante para o decisivo jogo da libertadores com SÓ o Boca Juniors. 

Para o jogo de quarta iremos sem Fred, contundido na decisão das oitavas contra o Internacional, e Deco,que sentiu a coxa na decisão com o Botafogo no último Domingo.  Além deles temos a ausência já prevista de Valência, Diguinho e Nem. Ou seja, o osso da Bombonera terá de ser encarado com a galera liderada pro Wagner, Jean, He-Man e Edinho e liderada pela raça do Abel, pelo talento de Thiago Neves, pelo coração da torcida, pela cosmicidade rodrigueana e pela fé em João de Deus.

Não vai ser mole, o Boca é favorito e por isso prevejo o Fluminense classificado para as semifinais após dois jogos cardíacos, doloridos, heróicos. 

Não porque somos superiores, apenas porque somos o Fluminense.

domingo, 13 de maio de 2012

Amistoso - Comemorar o campeão invicto, mas cobrar o Galo Forte

Por Victor O. P. Coelho

No seu texto “O Forlán tangível e intangível”, publicado em seu blog Olho Clínico , Mario Marra disse que sua chegada (de Forlán) poderia “representar a maturidade e seriedade que o elenco parece carecer”. Se foi já “efeito Forlán” eu não sei, mas houve uma melhora significativa do futebol do Galo nesse segundo jogo da final do Mineiro 2012 contra o América, tanto na parte coletiva quanto na individual

Na parte coletiva, o time se mostrou mais coeso, marcando bem pelo menos desde o meio-campo até atrás, com a defesa firme e atenta, praticamente anulando o time do América – que, embora ainda limitado, é um time que havia se mostrado coeso, determinado e perigoso no ataque contra o Cruzeiro.

Na parte individual, Guilherme mais uma vez fez uma grande partida, mesmo um tanto no sacrifício por estar ainda recuperando da última contusão (e esperemos que seja a última mesmo este ano). Foram dos pés dele que saíram os dois primeiros gols. Bernard também melhorou, se movimentando mais, deixando de ser o jogador previsível e facilmente marcado das partidas anteriores, desde que voltara do departamento médico. Marcos Rocha também melhorou, mas o caso especial foi de Richarlyson. 

Claro que nada justifica homofobia, mas era claro que a torcida começou a pegar no seu pé devido ao futebol bem fraquinho que vinha apresentando e, no caso do primeiro confronto contra o Goiás, eu mesmo parei de assistir depois que ele “entregou” a bola que resultaria no segundo gol do Goiás – que, para piorar pro nosso lado, jogava com aquele uniforme medonho. Hoje finalmente o Rick resolveu sair do papel de vítima e jogar como guerreiro. Só espero que não seja apenas algo corriqueiro, nem apenas, também, algum possível “efeito Junior César” (outra contratação ainda não confirmada).


Vencer o Campeonato Mineiro de forma invicta é, de fato, um grande feito e merece a comemoração. Mas, todos já sabem que o Galo precisa de muito mais. Tendo isso em vista, e sem pretender diminuir a conquista, sejamos realistas: o nível do futebol mineiro hoje é muito fraco. E não me refiro apenas aos times do interior. O Cruzeiro só não foi rebaixado ano passado pela “ajuda” do Galo, que resolveu entrar em campo já de férias. Ficou agora de fora da final do estadual, tendo sido desclassificado na semi-final pelo hoje goleado América. O América, por sua vez, é um clube organizado, com time coeso e de bom nível para disputar a Série B, parece ter um projeto consistente para sonhar voltar e permanecer na Série A. Mas ainda é, no máximo, uma equipe da Série B. E o Galo... Dos jogos mais importantes, empatou o único jogo contra o Cruzeiro depois de abrir 2 a 0. Dos três jogos seguidos contra o Tupi – melhor time do interior e atual campeão da Série D nacional –, empatou dois e ganhou um apertado. Contra o América foi melhor, tendo ganhado um jogo equilibrado (embora com mais posse de bola do Galo) na fase de classificação, empatado o primeiro jogo da final e finalmente hoje se impôs de maneira que o jogador (ex-)americano Moisés reconheceu a superioridade do rival após o jogo. Mas o pior de tudo foi a patética eliminação diante do Goiás da Copa do Brasil, para manter nossa patética tradição nesse campeonato e para consolidar a humilhante freguesia diante do time goiano.

Mas evito de ser demasiado pessimista. O elenco do Galo é bom, acima da média no Brasil, a meu ver. A sequência de jogos no final do Brasileiro do ano passado mostrou que o time pode ambicionar bem mais, e o time já está reforçado este ano. O que falta (ou faltava?) era maior seriedade, dedicação, “sangue”, coisa que passou a ser cobrada, com toda a razão, após o vexame contra o Cruzeiro na última partida de 2011.

Contudo, o time precisa de mais dois ou três reforços pontuais. Precisa demais de um camisa 10 para chegar e virar titular, idem para a lateral esquerda. Os nomes do momento (Forlán e Junior Cesar) são bons, se jogarem seu melhor futebol (no caso do Forlán, sem exigir que seja o mesmo jogador da última Copa do Mundo). Talvez um goleiro experiente, embora eu prefira que seja mais um meia ou atacante de bom nível, além do camisa 10. Acredito que o dinheiro disponível pudesse ser usado para mais (ou seja, quatro ou cinco) boas contratações, de jogadores do Brasil ou América Latina, com jogadores que não fossem tão estrelas mas que já pudessem chegar e somar futebol ao time, desde o início do campeonato. Seria algo mais tangível, concreto, que talvez rapidamente já colocaria o time entre os fortes candidatos a brigar pelo G-4. Mas vejamos o que acontecerá.

Se esses bons reforços (ao menos três) vierem e o time se mostrar disposto a disputar o título do Brasileirão, como se mostrou hoje para abocanhar o título do Mineiro, creio que a perspectiva possa ser boa. O caso é que já perdemos uma boa oportunidade de voltarmos a sermos grandes em campo com mais uma eliminação precoce da Copa do Brasil. Tomara que isso, assim como o título invicto do Mineiro, possa servir como motivação para o time se comportar de forma determinada no Brasileirão 2012 e visar a pelo menos uma vaga na Libertadores 2013. 
 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Leiteria - A Jornada do Herói

Por Gilson Moura Junior

É o Fluminense.

Isso ai, o Fluminense, conhece? É.. aquele mesmo.. aquele que quando retorna no reino de Hades escolhe como livro de cabeceira a Jornada do Herói.

É aquele Fluminense, aquele que desnuda a emoção, a  agonia, com requintes Hitchcockianos, como se filmasse "Os Pássaros" enquanto o Imponderável chupa um Chicabon na calçada do Impossível.

O Fluminense, aquele de 2009, aquele de 2010, aquele que em 2011 foi dado como morto e só morreu quando havia virado protagonista. 

O Fluminense zoa a derrota, como um Judeu Errante que tripudia da morte retornando aos píncaros da emoção com requintes de crueldade, como um Ulisses redivivo que é um Ninguém que mata Ciclopes furiosos e autocentrados.

E o Inter, que não é o Botafogo, conheceu novamente o Fluminense na noite de ontem.

O Torcedor do Fluminense quando saiu de casa com o sabor da classificação na ponta da língua, se preparava para uma dolorosa experiencia que lhe é comum e grata, a da superação de montanhas, de inimigos imaginários, moinhos de vento, medos, depressões, falhas e do desdém que nos acompanha desde a descida aos infernos da série C. O Torcedor do Fluminense no entanto não sabia como. 

E neste misterioso caminho entre uma certeza sagrada e a dúvida sobre o roteiro, subiram as rampas do novo templo tomados de inescapável garra. Gritaram, cada um como um pedaço de alma do eterno, cada qual um momento de gigante e absoluta, comovida até, doação àquele, aquelas cores, que não só traduzem tradição, como traduzem a inescapável predestinação à glória.

Com o Fluminense, repito,  o Imponderável chupa Chicabon na calçada do Impossível.

E o Inter, sabedor de que era a noite de sua melhor partida, sabedor que não é o Botafogo, cai diante de um novo conhecimento: somos o Fluminense.

Na segunda decisão entre os clubes em vinte anos o Inter aprendeu que mesmo longe de nossos melhores dias está diante de um gigante, de um Ulisses, e que sem a ajuda do Juiz talvez nem sempre seja simples superá-lo, especialmente com línguas grandes.

 Em uma semana mais uma batalha, mais uma enorme batalha que se torna uma nova tradição, um novo clássico. O Fluminense irá à tão saudosa quanto aconchegante Buenos Aires para enfrentar um Gigante ainda maior que o Internacional, um Gigante que além disso sabe que desprezando Guerreiros se cai e o quanto isso é doloroso.

Teremos diante do Boca Juniors mais um capítulo da espinhosa história que nos levou à final de uma Libertadores, a tradição de nenhuma moleza, de nenhum Bolivar, de nenhum sub-12 do timbuctu, pela frente, mas de gigantes, de monstros, leviatãs futeboleiros.

E como Ulisses chegaremos à Terra deste Ciclope como Ninguém, como mais um que ouvindo "nunca terás o tamanho do Boca Juniors", se cala e avança.

Eles são favoritos.

E isso é bom.





quarta-feira, 9 de maio de 2012

Leiteria - A um jogo do futuro

Por Gilson Moura Junior

O Fluminense está novamente a um jogo do futuro. 

Sim, o Fluminense não vence campeonatos pensando em um longínquo devir, ele vence vencendo finais, jogando finais, finais diárias, cotidianas. E muitas vezes tornando-as árduas para si mesmo e sua torcida, ávida de um jogo magistral, de uma índole Santista jamais vista com durabilidade na gloriosa história tricolor.

Ao Fluminense não cabe um Garrincha, um Pelé, um Nilton Santos. Não que gloriosos jogadores não tenham passado pelas Laranjeiras, e nem é preciso ir longe, basta citar Telê, Didi, Rivelino, Branco, Assis, Ricardo gomes, Conca, Fred e Deco. Mas mesmo com todos eles o Fluminense sempre foi ele mesmo. Ele é seu maior ídolo. Ele é o maior ídolo de sua torcida.

É o Fluminense que inflama arquibancada e jogador e que torna-os um estandarte de vitórias e títulos.  É a bandeira tricolor que transforma Marquinho em peça fundamental, que transforma Denilson em Rei Zulu.

No domingo último o Botafogo , favorito ao clássico, percebeu isso, viu dos pés, da alma tricolor, o massacre, o massacre que levou antes dos gols à perda de cabeça de uma de suas peças, um de seus guerreiros, que, tresloucado pela pressão tricolor, cometeu o crime que permitiu a goleada.

A atuação soberba o foi , antes de mais nada, porque soberbo foi o sentido de coletivo, de Fluminense, de alma ampla, de alma tricolor. O Fluminense foi eco, foi Fred, foi Sóbis, foi Bruno, foi Carlinhos, foi o Thiago Neves que sofreu falta, deu passes e desarmou na lateral direita, foi todos.

Ao Fluminense está aberta a estrada para o titulo carioca, mas ainda assim no rosto, nas línguas dos guerreiros a vitória só será comemorada ao apitar do árbitro do fim do próximo jogo, pois Fluminense é Fluminense e por isso mesmo se cala, sapiente de seu tamanho e do desnecessário repeti-lo como mantra.


Na quinta-feira cabe ao Fluminense o difícil desafio de vencer o bi-campeão da libertadores, o Internacional, que passa por indefinições advindas de suas práticas pouco ortodoxas no âmbito das contratações de jogadores da base, que inclusive nos tirou Dalton e Marinho. Ao Fluminense cabe vencer um grande time, que segundo seu lateral-direito Nei está em vantagem, pois para ele basta vencer-nos por 1 x 0.


Ao Internacional basta nos vencer, enquanto nós necessitamos vencê-los. É uma sutil diferença, uma sutil diferença presente na diferença entre Abel Braga e Dorival Junior, é a sutil diferença entre um que vê a dificuldade e busca superá-la e outro que confia no gabarito e experiencia de seus jogadores, e só deles, para superar um "melhor" Fluminense. Sutil diferença presente na confiança do tricolor, que sabe a guerra, que sabe a dificuldade, que sabe o que é Fluminense, mas persevera na nossa imensa capacidade de superar montanhas.

Ao Flu só resta vencer, dois jogos, duas vitórias que nos darão uma Glória garantida e mais um pedaço da longa estrada para o ápice das Américas. Ao Flu só resta o próximo passo.


Na quinta-feira o favorito é o Internacional, mais tarimbado, bi-campeão, contra um time chamado Fluminense, pequeno para alguns colorados, um time que nunca venceu a Libertadores e só está em vantagem no péssimo estadual, ao vencer um Botafogo desprezado para fora das fronteiras da Guanabara, outrora favorito ao jogo e ao título.

Ao Fluminense só resta a certeza de seu nome, de seu manto, da impossibilidade como fogo que nos arde as ventas e veias.

Ao Fluminense resta um time que cresce, que sabe de si e que monta-se para ser mais que apenas um coadjuvante no delírio de torcedores e mídia que o esquecem.

Ao Fluminense resta saber-se nunca um Santos, mas um Fluminense e por si só um gigante capaz de assustar a quem o vê, ainda, como um anão.




sábado, 5 de maio de 2012

Leiteria - Esperando o Vovô

Por Gilson Moura Junior

Há milênios o carioca não é decidido em campo.

Todos os títulos disputados no Rio de Janeiro, desde o primeiro chute em uma bola valendo pontos, nos idos de 1906, foram decididos nas mãos  das Moiras Gregas ou Nornes Nórdicas.

Todos sem exceção foram mais que apenas um jogo, sempre. todos nasceram e cresceram constituídos da mitologia que se erguia das mãos, pés e peles dos nascidos e vividos sob o sol desta terra.

O campeonato carioca existe para além do tempo, e sempre, sempre, teve e tem em si o suave perfume da eternidade.

Neste domingo nasce mais um capítulo da eternidade ao dar ao Clássico o protagonismo poucas vezes visto nem decisẽos de um campeonato de tal envergadura divinal como o Carioca.

Protagonista de apenas quatro decisões deste mais que centenário campeonato, o Clássico Vovô surge novamente como um momento de afirmação e reafirmação para ambos os disputantes, por vezes ocultados pela grandiloquência populista de emissoras e jornais, torcedores e seguidores do oba oba luso-mulambo.

E neste domingo, um domingo que espera, um domingo que anseia, decidirá não mais um campeonato,mas o campeonato que remete ao primeiro passo do homem no planeta futebol em terras Tupinambás, o campeonato que lembra que se não fossem os irmãos Cox ainda estaríamos remando.

As equipes, bem, elas terão seus heróis, quase todos, inteiros ou quase isso. Teremos o Maestro Deco, o Imponente Uruguaio Loco, o surpreendente Fred, o decisivo Thiago Neves, o seguro Jefferson, o insinuante Maicosuel, todos em campo, prontos para concretizarem a glória em suas mãos.

Fora de campo, deuses e homens, mortos, vivos, entidades, se juntarão a Manés, Nelsons, Lagos, Portos e criarão aquela sensação de atemporalidade que só quem nasce nestas plagas da Mui Leal entende.

É chegada a hora de mais um vovô.

Que bom!


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Solucionática: Galo fraco e freguês

 Lucas Morais



A camisa do Atlético vale hoje menos que este horroroso uniforme verde e amarelo do Goiás. Parabéns ao Goiás, aliás. Com os veteranos Iarley, atacante, e Harlei, goleiro, e um time de jogadores jovens, o time goiano conseguiu impor 2 a 0, em casa, pela Copa do Brasil, dando apenas uma única chance de gol do lado alvinegro. Já no jogo de volta, no Independência, em Belo Horizonte, a equipe goiana soube aproveitar os contra-ataques, quase matando o jogo já nos primeiros minutos de jogo, apesar dos dois gols atleticanos que viriam a seguir. Portanto, mérito total para o Goiás.

O Galo está semelhante ao Fluminense dos anos de 1990. Caso não ocorram mudanças internas radicais, o time poderá sofrer novo rebaixamento logo, logo. Olhando-se os nomes do elenco, é um bom elenco. Nada mais que isso, “bom”. Entretanto, tem “treta” aí no meio. Problemas internos tomam conta, mesmo com a aparência de um ambiente de trabalho tranquilo. Tranquilidade? Não. Jogadores se xingando em campo, o time vem jogando somente um tempo com mais regularidade (regularidade esta que soma, no máximo, 25 minutos, mesmo no Campeonato Mineiro), enquanto sacrifica outro tempo para o toque de bola covarde, isto é, nada contra manter a posse de bola, mas quando essa posse passa a representar a ausência de opções e ousadia no ataque, essa posse de bola passa a ser sintoma de um time comodista, conformado, que se apequena até diante dos pequenos, já que não busca o resultado, os gols, e, quando busca, com base na pressão da torcida, sempre depende de Neto “Resolve” Berola (ou outro “milagre”), que tem sérios problemas físicos que o impedem de jogar por mais de 25 minutos. Há graves problemas de bastidores, de vestiário. Disto a imprensa esportiva, mineira e nacional, sequer trata ou apura.

Como um time que possui “o melhor centro de treinamento do Brasil”, possui o maior patrocinador do futebol nacional (Banco BMG) e saldo para contratação de, pelo menos, três jogadores muito bons, tem e terá como arena tanto os novos Independência e o Mineirão, com um bom treinador como o Cuca e um bom preparador físico como Carlinhos Neves (Seleção Brasileira), com um elenco, no mínimo, razoável, pode, com todo respeito a estes clubes, conseguir ser freguês de times como o Goiás e o Botafogo? Com jogadores perdendo corridas para o veterano Iarley? Ora, basta assistir a qualquer, digo, qualquer jogo de times como o Internacional, Fluminense, Corinthians, Santos, São Paulo, Botafogo, Vasco, Bahia, Coritiba, entre outros, para ver, por contraste, que há graves problemas no vestiários atleticano. Qualquer veterano do Vasco possui mais pique que meio time do Atlético. Que tal? Será problema somente de elenco? Será que o sistema de treinos está correto? Será que a preparação física está dando certo? Como times como o Fluminense, que  nem possui um centro de treinamento com  qualidade da Cidade do Galo, possui jogadores em muitíssimo maior rendimento que o Atlético?

Galo é Galo?

Afora o ufanismo propagado pela rádio Itatiaia e os comentaristas atleticanos, o clima interno do Atlético mais se assemelha ao decadente Flamengo. “Galo é Galo”? Galo foi Galo, “forte e vingador”, até meados da década de 1980. De lá para cá, o Galo tem sido cada vez menos Galo. Portanto, que história é essa, que ufanismo irracional é esse de “Galo é Galo”? O time Galo está menor que o América. Só não está efetivamente menor em função de torcida e recursos financeiros, pois, de resto, não há dúvidas que é o time alviverde belo-horizontino que merece, dentre todos os demais times mineiros, o título de campeão mineiro em seu centenário. Torço mesmo para que o Galo perca desta vez.

Não há o que comemorar caso o time alvinegro seja campeão. Desde 1971, só comemorou-se duas Sul-Americanas, na época, Conmebol, que disputavam os terceiros e quartos colocados das ligas nacionais sul-americanas. Afora isto, não há o que comemorar, apesar de todo e qualquer atleticano saber que é um time que tem e teve tudo para ser um gigante, mas foi sempre administrado de modo arcaico e equivocado. Os títulos de Campeão Mineiro só tem servido para abafar os problemas e refugiar a suposta “grandeza” do clube em um título totalmente inexpressivo. Afinal, em que ajudou o título mineiro ao quase rebaixado Cruzeiro de 2011?

O Galo está na água, a tendência é só descer. Bahia, Figueirense e Ponte Preta estão com times melhores que o Atlético. No Brasileirão, a disputa contra o rebaixamento deverá incluir o Atlético, Portuguesa, Náutico, Sport, Atlético Goianiense e, talvez, Cruzeiro, dado que o time celeste não é fraco, apesar de estar mal-entrosado, haver também problemas de vestiário, financeiro, contratações etc. Muda-se o treinador, contrata-se para as posições corretas e o Cruzeiro volta a se manter na zona intermediária, podendo melhorar rapidamente.

Todo atleticano sabe das carências, limitações e erros do time. A diretoria, por sua vez, ao invés de buscar soluções mais radicais, como o afastamento de determinados jogadores, a contratação certeira para as posições mais carentes (cadê o “olheiro” Eduardo Maluf?), o tratamento para conciliação das crises no vestiário, continua perpetuando sua fórmula de “dessa vez vai”, mascarando as limitações com uma invicta, mas pífia, campanha no Campeonato Mineiro, em que somente América, Cruzeiro e Atlético disputam de fato, com o Tupi comendo pelas beiradas em função do bom time que possui para disputar a Série C do Brasileirão.

Ontem o Independência não esteve lotado. Fosse em outros tempos, até mesmo as ruas ao redor do estádio estariam tomadas pela torcida. Desde o 6 a 1 sofrido contra o Cruzeiro na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2011, que contou com muitas ações suspeitas nos bastidores, inação técnica e de direção, o clube vem se apequenando inexoravelmente. A amarga estreia no Independência reforçou esse rumo. Daqui em diante, é só ladeira. E, “daqui”, entenda-se década de 1980.

Um time completamente aburguesado, com seus jogadores ganhando salários acima de 150 mil reais por mês para apresentar um trabalho ridiculamente fraco, displicente e apático, cujo valor real é igual a times da Série B, enquanto esses jogadores estão nitidamente pouco se importando para o coração dos torcedores e para a urgente necessidade de batalhar, com sangue nos olhos, pela conquista de expressivos títulos nacionais e internacionais, que (re)coloquem o time na esteira dos verdadeiros grandes clubes nacionais e internacionais, como historicamente foi o Galo.

Ora, que modernidade é essa, Alexandre Kalil? Como se contrata jogadores para o Atlético? Por quê? Para quê? Como se dá a preparação física desses jogadores? Como que um time que gasta tanto dinheiro em contratações, salários, centro de treinamento, treinador etc, cai sempre para o Goiás na Copa do Brasil, para o Botafogo na Copa Sul-Americana, para quase todos os grandes no Brasileirão, para o Cruzeiro na final do Campeonato Mineiro, e daí em diante? Será que o treinador Cuca emburreceu ou está lidando com problemas muito maiores que sua capacidade de gerenciamento de crises?

Espero, mesmo, que o América seja o campeão do Campeonato Mineiro deste ano, não só em honra ao seu centenário, mas porque, dentre os times mineiros, é o único que possui hoje dignidade e mérito para tal título. Apesar de sua torcida não ser mais aquela de antes dos anos de 1950, seu time hoje é um grande, com todas as limitações que há. Mescla-se, corretamente, a juventude de seus jogadores oriundos da base com a experiência de veteranos como o atacante Fábio Jr. e o goleiro Neneca. O time tem sangue, coração e sabe de suas limitações. Os jogos contra o Cruzeiro na semifinal do Estadual mostraram isto.

Enquanto isso, temos que escutar que “Galo é Galo”, do mesmo modo que flamenguistas usam o “Mengão é Mengão” para abafar todas as crises, adversidades e péssimos resultados.

E agora, Kalil? Que tal parar de se comportar como um moleque de voz grossa, falar menos, fazer muito mais e efetivamente modernizar o futebol do Atlético? Será que este presidente assiste a Copa Libertadores? Será que ele tem acompanhado o futebol dos grandes clubes brasileiros? Ou será que continuará acreditando que dirige um Real Madrid enquanto em campo o time mostra ser algo muitíssimo inferior ao seu segundo rival belo-horizontino?

Ah, e não nos enganemos. A culpa não é só da diretoria. É da torcida também, que não é santa e muitas vezes acaba atuando contra o próprio time, já que se faz permanentemente iludida, acomodada, conformista e passiva, do jeito que todo e qualquer o adversário ou rival gosta. E, assim, de ano em ano, o Galo vai se tornando um pinto inofensivo.