Mostrando postagens com marcador Gino Trombador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gino Trombador. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de março de 2012

Gino Trombador - E a Libertadores foi eliminada da Champions League

Por Paulo Ferraresi Pegino

O sonho da ponta da bota de conquistar a Europa acabou. Pelo menos nessa temporada. Ontem, o Nápoli foi eliminado da Uefa Champions League jogando um futebol apático e até um pouco covarde na Inglaterra. O Chelsea, time de uma temporada instável e com um futebol sonolento e burocrático não teve lá grandes dificuldades para reverter o placar do jogo de ida, quando foi atropelado por 3 x 1 por um Napoli avassalador na Itália. Em Londres, o time inglês enfiou um sacode de 4 x 1 e passou fácil para as quartas de finais da liga.

Nessa temporada, o Napoli era o representante europeu do futebol latino. Para ser mais exato, era tal qual um time argentino quando joga Taça Libertadores: uma torcida barulhenta e apoiadora até nos piores momentos, um jogo de muita pressão em casa, até mesmo contra adversários tecnicamente superiores, e muito talento do meio de campo pra frente. Foi assim, por exemplo, que o Napoli conseguiu virar o jogo de ida contra esse mesmo Chelsea. Vale ressaltar que fazer pressão em casa contra adversários mais fortes não é lá muito comum na Europa. De praxe, ciente de sua inferioridade técnica, um time menor se porta como num burocrático jogo de xadrez: se fecha, tenta anular as principais jogadas do adversário mais poderoso e, com uma disciplina tática irritante, vai aos poucos encaixando seu jogo. Não era assim que a banda tocava no San Paolo lotado. Lá, o Napoli tacava fogo no jogo, na torcida e no adversário.

As coincidências entre o Napoli e os hermanos continuam: o ataque é fino. Tem o matador uruguaio Cavani, o talentoso meia-atacante argentino Lavezzi e o habilidoso chileno Vargas. Todos rápidos e de decisões inteligentes. É comum um deixar o outro na cara do gol, e a raça pra jogar bola sobra; o problema é que a argentinização continua na outra ponta do time. Assim como os conterrâneos de Messi, o Napoli tem uma defesa frágil (exceção honrosa ao goleiro De Sanctis). Junto com a apatia do jogo da volta, a defesa foi a sua ruína na liga.

Esse DNA latino, aliás, vem de longa data. O melhor Napoli de todos os tempos era o da dupla Maradona e Careca. Esse time também contava com a inteligência do Alemão no meio campo. Foram bi campeões italianos e campeões da Copa da Uefa (atual Uefa League). Diz a lenda, ainda, que a torcida italiana que lotava o San Paolo, em Napoles, na seminifinal da Copa do Mundo de 1990 entre Itália e Argentina estava dividida.

Uma parte torcia pela pátria, já a outra não esquecia que era napolitana e sulista e que, em geral, era vítima dos preconceitos mais imbecis por parte de seus conterrâneos do norte rico. Essa metade ficou feliz quando a Argentina passou para a final depois de vencer os italianos nos pênaltis.

De agora em diante, o que sobra na UCL são figurinhas carimbadas: Barcelona, Real Madrid, Milan, Chelsea, Bayern de Munique... Todos poderosos. Ainda, figuram outros dois tradicionais, mas com um pouco menos de grife: Benfica e o novo rico Olympique de Marselha. Fechando a lista, a zebraça cipriota Apoel. A Libertadores ficou órfã de seu único representante na UCL. Uma pena. 


segunda-feira, 12 de março de 2012

Gino Trombador - A Ferrari do Cruyff e a Ferrari do Wagner Ribeiro


Por Paulo Ferraresi Pegino

Um dos momentos mais marcantes para qualquer são paulino com mais de trinta anos aconteceu certamente em 1992, pouco depois dos 34 minutos do segundo tempo do jogo São Paulo e Barcelona, no gélido dezembro de Tóquio. A bola ainda procurava o melhor lugar para descansar dentro da meta do grande Zubizarreta, quando Raí iniciara sua corrida em direção ao mestre Telê Santana. Corrida em linha reta, com o olhar fixo e com uma emoção contida, certamente penosa para ser segurada. Nenhum gesto de comemoração. Raí sabia que os melhores momentos daquele time deveriam ser dedicados ao mestre, e aquele, claro, era um desses momentos. Só foi esboçar um sorriso quando atravessou a barreira formada por colegas e finalmente alcançou um Telê ainda tenso com o restante do jogo que viria.

Era madrugada no Brasil, e o senso de responsabilidade de torcedor (que nada!) me obrigava a acordar toda a vizinhança, num raio razoavelmente grande de casas, com um grito de gol que me deixou rouco por dias seguidos. Na manhã seguinte, estampado no jornal que meu pai religiosamente comprava todos os finais de semana, a célebre frase do então técnico da esquadra blaugrana, Johan Cruyff: “fomos atropelados por uma Ferrari!”

Sem falsa modéstia, a analogia foi perfeita. Afinal, significava e traduzia o ápice de um trabalho coletivo bem feito, arquitetado pelo saudoso mestre, montado para vencer jogando bem e fazendo gols, e que transformou em uma “Ferrari” um bando de jogadores que em sua maioria nada eram além de comuns (todos craques para nós são paulinos, claro). Lá se vão vinte anos...

Essa semana a torcida são paulina foi novamente “agraciada” com a analogia da Ferrari. Wagner Ribeiro, agente-empresário de Lucas, disse que seu pupilo era uma “Ferrari mal dirigida”. A frase foi uma resposta às críticas construtivas recebidas pelo jogador em função de más atuações nos últimos jogos. Sem saber lidar com elas, o jovem Lucas ficou magoado e desabafou no twitter. O empresário agiu rápido e o recado foi claro: seu menino está pronto e é craque. O São Paulo, a instituição, o técnico, seus companheiros, são obstáculos à sua arte sublime e apenas o atrapalham. A frase repercutiu.

Talvez Wagner Ribeiro tenha razão; assim como a Ferrari de Telê, sua Ferrari também conquistou o mundo, afinal de contas o twitter de Lucas pode ser lido desde a Sibéria até a Califórnia. Não só isso, o menino prodígio também coleciona outros feitos: possui sua própria legião de lucazetes e é figura comum em eventos midiáticos de grandes proporções, como encontros com príncipes europeus e participações em programas globais de auditório. Não à toa, desfila suave ao lado de nomes consagrados como Ronaldo e Neymar. Com vasto currículo e nobres conquistas, o self-made man do Wagner Ribeiro nada mais tem a aprender no futebol.

De besta, o empresário só tem a forma de se expressar. Percebeu a chance de abiscoitar uns muitos trocados com a situação colocando jogador contra time e torcida. E o raciocínio é simples: quanto mais transferências, mais comissões. Forçar a saída do jogador é um negócio lucrativo, mesmo que para isso tenha que usar covardemente seu pupilo, colocando-o em uma situação que gera mal-estar com clube, colegas, torcedores e técnico. De quebra, ao mimá-lo em público e blindá-lo de críticas, o empresário reforça o vínculo subjetivo construído com base em uma relação paternalista e altamente danosa para o jogador. Em outras palavras, se posiciona como o pai-conselheiro e amigo, “parceirão” sempre disposto a protegê-lo.

Mal percebe o jovem jogador que ao se deixar levar pelos elogios interesseiros de seu empresário e ao não aproveitar as críticas para melhorar seu futebol, pode acabar como mais uma de tantas promessas do futebol brasileiro. A “Ferrari” pode ter um destino pouco nobre: talvez acabar encostada na garagem de um time de segundo escalão do futebol europeu, ou ainda, acabar em algum XV de Piracicaba, como bem lembrou o Menon acerca do caso do “Messi brasileiro”, uma das recentes descobertas desse mesmo Wagner Ribeiro.