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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Campinho da Aldeia Velha – Creepypasta


Por Victor Freire

Eu sou facilmente impressionável por coisas que vejo, e por isso eu odeio creepypasta, além de dar graças a Deus por não ser médium vidente. Também pelo mesmo motivo não vai ter imagem nenhuma ilustrando esse post, e peço aos meus editores que por favor, não tentem ilustrá-lo.

Creepypasta, para quem não sabe, são as lendas urbanas que volta e meia sobem à superfície da internet vindas da podridão da Deep Web, contendo imagens e textos que sugestionam o leitor a ficar terrivelmente assustado. São diversos os exemplos disso, e quem quiser procurar pra ver do que se trata, fique à vontade. Eu que não vou atrás dessas merdas.

Mas a merda, como se sabe, vem atrás da gente. E eu me dei conta do creepypasta da vez que está a me assombrar ontem à tarde, ao ver o resultado da rodada, quando cheguei do aniversário das amigas de minha namorida.

Trata-se da não-promoção do Santa, ou até mesmo do seu novo descenso à série D.

Para reforçar esta terrível situação aterrorizante, os paralelos com o Fortaleza de 2009, quando ficou no meio da tabela do seu grupo na Série C, são imensos. Uma sequência de empates e derrotas. O time, que no papel era melhor do que seus adversários à subida, não conseguiu engrenar em 8 partidas jogadas. E está até hoje onde está.

Um doce a quem adivinhar quem era o técnico e o que ele dizia na época para justificar sua postura em campo, sem reconhecer que o time necessitava de ofensividade, não de retranca.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Campinho da Aldeia Velha - A sorte, essa linda!

Por Victor Freire


Zé Teodoro não só nasceu com o oiti dele virado pra lua. Mais que isso. O homem é um leprechaun, um olho grego antropomórfico, a reencarnação do Buda Gautama em nossa era. Só isso explica o que aconteceu no último jogo.

Deixa eu falar logo dele, já que o assunto veio à baila tão cedo, e causou uma impressão tão forte. Digo isso por que vi o jogo (pela internet, se eu colocar tv por assinatura na minha casa eu não faço mais nada na minha vida), e posso falar. O time do Paysandu é seboso. Mas o Santa conseguiu ser pior.

A começar pela zaga, sincronizada com o tempo do jogo como uma dublagem de um filme de kung fu nível Z de Hong Kong nos anos 80. Depois do Santa ter tomado 3 a 1 é que eles lembraram que podiam fazer linha burra - e ainda assim, mais inteligente que os dois. Os volantes, bem, não marcavam e não sabiam sair com a bola, e talvez fossem mais úteis em um Gol 1000. Os meias não conseguiam marcar a saída de bola e tocar, também, nada. De uma displicência atroz, como se quisessem testar a paciência dos 24 mil torcedores que assistiram a peleja.

Deve ter sido por isso que Zé os tirou de campo e colocou 2 atacantes, pra tentar fazer um 4-2-4. Bom, nossos atacantes reservas não andam servindo de nada, a não ser tentar pedalar e perder a bola no lance seguinte.

Percebam, no entanto, que o time do Santa não é ruim, mas está faltando, na minha opinião e em primeiro lugar, concentração e comprometimento. O time anda disperso demais, mas provou no Pernambucano que, quando quer, joga. Concentração essa que, quando esteve presente durante o jogo, nos fez meter uma rajada de 2 gols em menos de 5 minutos, ambos do goleador Dênis Marques. Faltou quando este meteu uma bola na trave e quando Fabrício Ceará matou a bola com o braço antes de enfiar uma bicicleta na trave. Se tivéssemos jogado com um pouquinho de vontade a mais, o papão voltaria pra Belém com uns golzinhos na mala.

*     *     *

Ah, sim, teve o jogo contra o 12+1, no qual ganhamos de 2 a 1. Tenho pouco a falar, exceto que foi um dos poucos jogos onde o time demonstrou confiança. Mas um jogador chamou a atenção por seus comentários: o volante Memo. O gol do 14-1 surgiu por uma desatenção destes quando, palavras do próprio, estava ajeitando uma chuteira que havia estourado.

Eu fico particularmente puto quando vejo um jogador dar uma declaração desse tipo. Da mesma forma como fiquei puto quando o Brasil foi eliminado da Copa América e Robinho colocou a culpa no gramado. Ou quando jogadores disseram que a Jabulani (ainda que pese ser uma das bolas mais feias e sem graça que eu já vi) era incontrolável e impossível de servir a um jogo oficial.

Vamos aos fatos: em nenhum lugar do mundo nego começa jogando bola numa quadra ou gramado bonitinha e bem feitinha, padrão Fifa. Salvo aquele time da Tailândia que treinava numa plataforma flutuante, todo mundo teve a oportunidade de começar num campo de terra batida. Na Europa, na América do Norte. Nos países de Terceiro Mundo, onde nascem metade dos craques do planeta, então, o que teve de menino chutando pedra e continuando a dar bicudos com o tampo do dedo solto, sangrante, não está no gibi.

Este tipo de declaração esfarrapada pra justificar um desempenho especialmente ruim diz muito, também, sobre o que acontece com o futebol moderno. Está totalmente desconectado de suas origens. Torna-se cada vez mais um espetáculo para dar prazer (leia-se grana) aos investidores do que necessariamente uma competição esportiva que movimenta toda uma comunidade. Penso se a próxima geração acreditará que os jogos internacionais no século XIX, entre Escócia e País de Gales, por exemplo, foram jogados por equipes amadoras onde os futebolistas eram mineiros, trabalhadores da estrada de ferro e das companhias de gás, operários de estaleiros e de metalúrgicas. A plateia? Esta assistia a poucos metros da cal, sentados em morrinhos de grama em volta do campo.

Como era verde meu vale.*

*Ver o livro de Richard Llewellyn.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O Campinho da Aldeia Velha - Voltou "daquele" jeito

Por Victor Freire

Paysandu x Luverdense
O imbroglio jurídico em que se transformou a série C do Campeonato Brasileiro de 2012 está longe de ter um fim, mas ao menos começou, com o Treze FC e o Rio Branco FC com asteriscos ao lado dos seus nomes. Após duas rodadas, vamos ao que interessa: de acordo com o artigo na Wikipedia, uma fonte mais fidedigna que o www.futebolinterior.com.br, temos o G4 do grupo 1 composto por Paysandu, Icasa, Salgueiro e Águia de Marabá, respectivamente com 6, 4, 4, e 4 pontos. O Santa está na 6ª colocação, com 2 pontos. Na rebarba, Fortaleza, que fez uma blitz mudança de técnico após o último jogo, e o galo da Borborema, que promete ser o bonus stage deste campeonato.

Tupi x Duque de Caxias
No grupo 2, os cariocas Macaé e Madureira estão no topo, com 6 pontos cada, seguidos pelo Chapecoense e pelo Santo André, ambos com 4 pontos. Em último, empatados, Oeste-SP e Tupi, sem nem um ponto. Deste grupo não sei muito, mas sei do primeiro: o Salgueiro vem surpreendendo e é um sério candidato ao ascenso, e o Paysandu parece ter recuperado o gosto pelo jogo. O Águia de Marabá começa a mostrar que vai ser aquele time pequeno chato de vencer, e o Santa, bem...

 *     *     *

O Santa merece um capítulo à parte. E ele é motivado, claro, por uma das personalidades que mais frequentemente aparecem por esta humilde coluna: Zé Teodoro. Zé fez duas partidas medíocres até então. Na primeira, um time apático e sonolento cedeu preciosos dois pontos ao empatar com o fraco Guarany de Sobral. Resultado aceitável segundo o coach coral, uma opinião da qual a torcida não partilha. Mas tudo bem, releve-se, foram férias forçadas por mais de um mês além do necessário. E vamos em frente.

Eu acompanhei pelo rádio (que remédio!) a segunda partida, em Salgueiro, cidade a cerca de 510 km do Recife, no sertão pernambucano. O que deu pra perceber foi que mais uma vez o time bateu cabeça e estava inseguro, como aconteceu, aliás, em muitas partidas do pernambucano. Se camisa pesa e afeta jogadores inexperientes, o goleiro, Diego Lima, parecia estar usando uma cota de malha feita com chumbo. Os zagueiros pareciam conversar entre si: um falando mongol e o outro, zulu arcaico (e quando falavam com os volantes, era em norueguês bokmal). Do meio pra frente, uma diarreia mental "crássica". O carcará abriu logo dois pra nego se orientar.

O jogo mudou no segundo tempo, mas não por mérito tático. Luciano Henrique e Dênis Marques tiveram, cada um, uma ideia digna de Arquimedes na clássica final do mundial de filosofia de 74 e fizeram 2 gols, empatando a partida. Não fosse a desorganização tática vista anteriormente, voltaríamos pro Recife comemorando e ainda no G4.

O que me deixa confiando um pouco mais no Santa é uma das principais qualidades de Zé Teodoro: a sorte. Zé nasceu com o fresado virado pra dona lua e ganhou 2 títulos estaduais e um acesso desse jeito. Bem, até o momento em que ela resolve abandoná-lo, como aconteceu no Fortaleza, alguns anos atrás. Espero que ela esteja longe, bem longe de voar para outras bandas. Mas seguro morreu de velho, por isso, abra do olho, seu Zé!

sábado, 23 de junho de 2012

O campinho da aldeia velha - um mês e nada

Por Victor Freire

Quase um mês e nada resolveu-se.

A situação é a seguinte: como todos sabem, uma série de clubes entraram na justiça comum solicitando sua inclusão na série C do campeonato brasileiro, e o que deveria ter se resolvido rapidamente transformou-se no maior imbróglio já visto no futebol tupiniquim, ao menos abaixo da fronteira da série B. A competição, que deveria iniciar-se no dia 27/05, já está atrasada em um mês, e ao que parece a série D vai começar antes.

Em reunião ocorrida no último dia 19, Rio Branco e Brasil de Pelotas desistiram de suas ações na justiça de seus estados, embora o estado do Acre tenha decidido que vai figurar no pólo ativo na ação outrora conduzida pelo principal time de sua capital. O grande problema até agora vem sendo apresentado pelo Treze Futebol Clube, de Campina Grande, também conhecido como Galo da Borborema.

O time não desiste de sua ação e insiste em impedir a realização de um campeonato nacional com uma liminar emitida por uma justiça estadual, que em meu entender não deveria possuir esta competência. Eles pleiteiam o acesso na série C baseados em sua colocação na série D (entro em mais detalhes logo abaixo) do ano passado e em um acordo estranho realizado pela CBF com o Rio Branco, que em teoria deveria ter sido rebaixado no grupo norte da terceira divisão por escalação irregular, mas teve seus pontos zerados no meio da competição e ainda assim conseguiu permanecer, sendo rebaixado no seu grupo o Araguaína.

Desta forma, o Treze considera que o Rio Branco na verdade deveria ser rebaixado junto com o Araguaína e a vaga deveria ser repassada a ele, quinto colocado, levando-se em consideração a pontuação do time na segunda fase da série D. O problema com esse argumento é que o regulamento da quarta divisão é claro ao considerar que, para efeitos de classificação final dos clubes no campeonato, serão consideradas ambas as fases. Por este critério, o time paraibano é sexto, e não quinto colocado, como afirmam.

Não obstante essa situação, o Treze ainda demonstra que agiu de má-fé, uma vez que só entrou com o pedido após a realização do campeonato paraibano deste ano, onde não foi às finais: viu a vaga para a série D do estado cair no colo do Sousa, segundo colocado que decidiu o campeonato com o Campinense, rival do Treze e que foi rebaixado à mesma quarta divisão de maneira injusta, em um arrumadinho que beneficiou o Fortaleza no último jogo, contra o CRB.

A CBF poderia simplesmente passar por cima da liminar que foi concedida ao time na justiça paraibana e aguardar o trânsito em julgado da ação. Mesmo a multa só será paga após a decisão do STJ, e a entidade máxima do futebol ainda pode levá-la ao STF se decidir impetrar um mandado de segurança para resguardar o direito líquido e certo dos outros clubes, devidamente classificados, de jogar o campeonato. Mas não o faz, já que isso não incomoda os clubes que estão na série B e A. Uma pena que a CBF e sua nova administração, na figura do sr. José Maria Marín, não liguem com as divisões mais baixas do futebol nacional, que possuem sua importância.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Campinho da Aldeia Velha - Flamengo de Arcoverde: mais um ano fora da série A2


 Por Victor Freire

O Clube de Regatas Flamengo, aquele famoso do Rio de Janeiro, é objeto pra uma análise fria, imparcial, mas acima de tudo sob a luz da ciência social e histórica: é um clube conhecido por sua gestão atabalhoada, pra dizer o mínimo (Ronaldinho que o diga), e com uma recente carência de títulos importantes (só um Brasileiro, 2009) incondizente com sua pretensa grandeza.

Imagem meramente ilustrativa
Ainda assim, conquista uma quantidade impressionante de torcedores até mesmo fora de sua origem, em estados menores e interior de estados maiores de Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Os famosos torcedores pé-de-rádio, ou pé-de-boteco-com-pfc, ou ainda, derrogatoriamente, paraibacas, compõem, arrisco, mais de 80% da nação urubu. E tome “mengaum” pra lá, “mengaum” pra cá...

Mas foi este anacrônico Flamengo que inspirou o rubro-negro (ugh!) de minha cidade natal. O  Flamengo Esporte Clube de Arcoverde, Pernambuco, foi fundado em 1959 e sempre teve boas atuações nos estaduais, com bom público em sua casa, o ex-municipal Souto Maior, hoje Áureo Bradley.

O primeiro jogo de futebol profissional que eu já vi na vida foi do Flamengo, lá pelos meus 3, 4 anos de idade. Eu já vi fotos dos anos dourados do Flamengo de Arcoverde, de sua fundação e primeiras campanhas, cheguei até a acompanhar um pouco de suas boas campanhas na segunda metade da década de 90. Até meu pai, tricolor arrudeiro como eu, associou-se ao time.

E ao que parece, foi só. Uma das maiores tristezas pra mim é ver um clube com história não disputar um campeonato de porrinha que seja. Um campeonato qualquer, que valha uma grade de cajuína Hiran. É justamente o que está acontecendo com o time de lá, com razões que variam de um ano pra outro: primeiro, cedeu lugar a um certo “Arcoverde Futebol Clube”; depois, a ausência de um médico esportivo na ficha de inscrição.

Surgiram então uns empresários trambiqueiros de SP que prometeram reerguer o time, mas aliciaram uns perronhas e ficaram sem pagar os pobres coitados, sumindo com a grana depois. Este ano, foi a reprovação do Áureo Bradley pela FPF, que está jogado às moscas pela prefeitura, doida pra vendê-lo para algum empreendimento imobiliário colocá-lo abaixo.

Muitos fatores contribuem para a derrocada do Flamengo de Arcoverde: a péssima gestão, tanto da parte dos dirigentes quanto da Liga Desportiva Arcoverdense; a situação econômica da cidade, que há muito tempo não desponta com força no sertão pernambucano; e a falta de mobilização dos moradores e da prefeitura da cidade, pouco interessados com o patrimônio esportivo local, que já levou à dilapidação tanto do estádio quanto do Centro de Educação Física, outrora palco de uma ativa e organizada vida desportiva.
Outras cidades e times no interior de Pernambuco (Surubim, Petrolândia, Ouricuri, e até mesmo Garanhuns, com 150 mil habitantes e uma economia considerável) passam pelo mesmo mal, até onde eu sei. Mas o caso de Arcoverde e do Flamengo de lá é um dos mais emblemáticos. E, pela proximidade, como dói ver esta situação...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O campinho da Aldeia Velha - Sonho Estranho

Por Victor Freire

Engraçado. Tive um sonho estranho hoje.

Sonhei que estava assistindo um treino do Santos F.C. (não, por incrível que pareça, não era do Santa Cruz). Mas haviam significativas diferenças em relação à vida real. Este Santos estava sendo comandado pelo "pofexô" Luxa. E o treino estava sendo conduzido em um terreno baldio, de terra batida, mal cuidado e onde se podiam ver pedras soltas e cacos de telha e de lajotas de cimento aqui e ali. Parecia com os campos onde (vez ou outra, nunca fui fominha por bola) batia pelada com os amigos ou os moleques dos bairros lá de Arcoverde.

Luxemburgo, de uma maneira que me impressionou muito, não estava com a sua típica arrogância. Segurava uma bola embaixo do braço, uniforme de comissão técnica, tênis nos pés, olhar grave. Aguardava os jogadores chegarem ao local de treino, de forma displiscente, aos bolos (pequenos), enquanto iam formando um círculo para a preleção inicial antes do início das atividades.

Deduzi, por algum motivo estranho, que aquela seria uma manhã, cedo, de segunda ou quinta-feira, pós-rodada. As palavras do treinador ao seu grupo só vieram confirmar minhas impressões: Luxa deu uma bronca enorme no time por causa de uma derrota sofrida no dia anterior. Chamou-os de preguiçosos, cobrou empenho, profissionalismo e dedicação dos jogadores. Lembrou-os de que o principal propósito de estarem jogando bola é de proporcionarem resultados e satisfazer a torcida. Dispensou o grupo e ficou supervisionando a realização de um treino tático.

Fui comentar qualquer coisa com o treinador do alvinegro praiano, e ele me disse de forma assertiva: "Tem de cobrar mesmo desses caras. Eles estão muito relaxados, entrando em campo achando que só isso é a obrigação deles. Não pode ser assim".

Eu pessoalmente sou da crença de que sonhos podem revelar aquilo que nós consideramos formas ideais, apesar de eu não ser exatamente um grande admirador do time do litoral paulista e menos ainda de um treinador tão controverso quanto o dito cujo. Mas naquele momento hipotético Luxa encarnou aquilo que eu considero como a forma ideal de um treinador após um momento de derrota: capaz de identificar a fraqueza de um grupo, chamar-lhe a atenção, e acima de tudo com um compromisso com os objetivos de toda organização esportiva de caráter competitivo - vencer competições.

Imagem meramente ilustrativa.
O grupo também mereceu um destaque: não havia ali demonstrações de estrelismo ou vaidade quando tomaram a esparrela de seu treinador. Todos ali permaneceram calados enquanto o chefe passava suas impressões, embora nem todos parecessem concordar com ele. Ao final, cada um voltou para seus afazeres enquanto jogadores em treinamento.

Putaria - sim, esta é a palavra que pode ser usada pra definir os critérios de acesso, descida e participação das equipes nas séries C e D. Nos últimos dias, ambos os campeonatos foram assolados por uma enxurrada de ações judiciais de equipes que queriam delas participar, ou não, mas sempre a fórceps. Em diferentes casos, estiveram envolvidos o Rio Branco (AC), Brasil de Pelotas, Treze (PB), Santo André e outros tantos.

Tal situação revela a quantidade de erros de concepção e gestão da CBF, de uma forma tão exarcebada que nos faz pensar se isso não é de propósito. Qualquer dia desses gostaria de sonhar com as divisões inferiores do campeonato brasileiro com mais qualidade, organização e clareza nos seus regulamentos. Mas já serviria (que remédio!) a subida do Santa pra Série B.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Campinho da Aldeia Velha - As lições que Cruijff dá


 Por Victor Freire

Meu último texto sobre Zé Teodoro no Santa Cruz acabou mexendo com as teias do destino, ou causando uma falha no código da Matrix: foi eu escrever para o dito cujo perder um jogo. Ganhou uma penca de outros, é verdade, mas continuou cometendo erros primários, que nos custou um clássico fácil contra uma coisa do mangue vinda de uma derrota vergonhosa para o Paysandu (para o Paysandu, porra!) e uma primeira partida de semifinal contra um Salgueiro de nível técnico fraquíssimo.

Zé Teodoro segue firme na sua decisão de continuar usando 3 zagueiros, 3 volantes e manter a postura do time recuada. Dando o devido desconto de quem acompanha os jogos do Santa de (muito) longe, a equipe parece raramente cruzar o território além da linha de meio campo, onde até mesmo os fracos podem ter vez, desde que tenham ousadia. O resultado é um time burocrático e até mesmo burro: quando ataca, o faz de forma desorganizada e não-efetiva. Quando defende, que deveria ser o seu forte (que remédio!), o faz de forma desorganizada também e aceita, complacentemente, um ataque adversário que seria facilmente evitado.

O comandante coral poderia tomar algumas lições com um jogador e técnico que, a meu ver, revolucionaram o futebol mundial: Hendrik Johannes Cruijff. Fala-se muito do carrossel holandês de 74 que encantou o mundo, mas suas raízes estão no Ajax de 69 a 73, vitorioso e campeão mundial de clubes em 72. Embora Cruijff tenha sido apenas jogador nesta época (o técnico era o também genial Rinus Michels), ele foi peça crucial na aplicação do sistema em campo, e repetiu a dose quando foi técnico.

Todo mundo fala de como os jogadores holandeses se dispunham em campo sem posições físicas, rodando e confundindo adversários, o que é uma definição simplória do que é, de fato, o futebol total. Desse jeito, parece que todo mundo joga na louca, de forma pior que futebol de zona rural. Poucos estudiosos (e não inventores, viu, seu Zé?) realmente pararam pra estudar o que de fato é este sistema tático: ele é simples, porém não simplório; proativo, mas não necessariamente atacante; de pressão, mas não displicente.

O sábio de Amsterdam dizia, de uma forma que considero muito correta: “O futebol simples é o mais bonito. Mas jogar simples é a coisa mais difícil”. É o que diferencia os verdadeiros gênios da tática de qualquer outro treinador. E um dos muitos sucessores espirituais de Cruijff no futebol catalão (onde este se estabelecera nos anos 80 e 90), Pep Guardiola, escreveu em 2007 a respeito do Barcelona, conhecido por aplicar um futebol parecido: “No Barcelona se entende que se pode vencer de mil maneiras. Todas são válidas. Todas funcionam. Não é preciso dizer muito mais que isso. Mas também se compreende que não se pode vencer e repetir o modo de vencer de uma forma que não parece certa pra você – e para os diretores, preparadores, jogadores, amigos e todos aqueles que vão assisti-los toda semana”.

O sistema de futebol total não é perfeito, no entanto. Beckenbauer e a Alemanha de 74 souberam como pará-lo, com uma marcação forte em cima daquele que era seu pivô. A evolução dele, o chamado "tiki-taka" espanhol, foi parado, ironicamente, pela marcação fortíssima do também alemão Bayern München. Isso, no entanto, não desmerece a tática, e tampouco as máximas de seus defensores, que deveriam ser melhor observadas nestes tempos modernos.

terça-feira, 13 de março de 2012

O Campinho da Aldeia Velha: Estabilidade estática relaxada

Por Victor Freire de Carvalho

Um dos maiores avanços na ciência aeronáutica foi o desenvolvimento de aviões que eram aerodinamicamente instáveis, associado a controles eletrônicos de áilerons e élevons, as superfícies que o fazem movimentar-se no ar. O que parece ser uma receita para o fracasso (como realmente foi, nos primeiros ensaios de vôo do F-16 americano) na verdade resultou em aviões mais manobráveis e capazes de fazer malabarismos antes impensáveis no ar. Tecnologia iniciada com os americanos, teve nos russos o seu ápice, com o desenvolvimento do pouco ortodoxo Sukhoi Su-47 “Berkut”.


É impossível, ao menos pra mim, deixar de ver paralelos entre um arrojado avião aerodinamicamente instável e as táticas usadas pelo técnico Zé Teodoro no Pernambucano deste ano. E não dá pra deixar de ver semelhanças com ensaios de alguma máquina maravilhosa, porém inédita e sujeita a falhas. É o famoso preço do pioneirismo.

Vejam bem: Zé tentou fazer funcionar, no início do campeonato, um 4-4-2 que se mostrou manco, com resultados insatisfatórios. Eu não me recordo bem agora, mas Zé deve ter usado em alguma ocasião um 3-5-2, que vou desconsiderar por enquanto. Fato é que a coisa não estava andando por uma série de fatores, sendo o principal a qualidade, a motivação e a concentração do nosso elenco.


A necessidade é a mãe da invenção, e hoje, digo, entendo, de certa forma, o porquê de Zé ter criado seu atual 4-3-3. O esquema tem potencial, embora esteja muito sujeito a erros. É uma aposta alta, mas Zé deve ter entendido que os eventuais benefícios compensavam os riscos. Obviamente temos problemas, como a má vontade de jogar que Leandro Bambu vem demonstrado, a falta de aplicação pela qual Weslley e Chicão passam, os quilos extras de Carlinhos Bala e a insistência de Luciano Henrique em achar que é um jogador carioca – somente no que toca às baladas e ao álcool.

No entanto, sempre resta a esperança de que os dirigentes do Botafogo usem de sua inteligência e realizem uma grande contratação, levando embora por custo zero Flávio Caça-Rato e Branquinho, numa tacada só.