Por Gilson
Moura Henrique Junior
Em torno de 1908, o alvissareiro
prefeito carioca Pereira Passos, o homem do “Bota Abaixo”,
afirmava seu entusiasmo com o futebol como sendo esse a arma da
“educação” do populacho, que passaria a se organizar como os
times e seus
Sportsmen se organizavam. O esporte como arma
sanitária, de vida saudável, nascia como paradigma da diferença
entre a sociedade com saúde, vulgarmente chamada de elite ou “os
ricos”, e a sociedade doente, vulgarmente chamada de povo ou “os
pobres”. A elite praticava esportes, trazia o vento do moderno
futebol, filho dileto da revolução industrial, a um Rio colonial
que tentava ser uma Paris dos trópicos.
A animação
de Pereira Passos com o esporte era eco da empolgação de uma elite
que se entendia como superior por ser branca, rica e por conter, em
seu pensamento, uma naturalidade óbvia: “Somos o mais puro extrato
da evolução, diferente do populacho negro e mulato que emporcalha a
cidade!”, poderiam dizer seus representantes.
A leitura de obras como
“Footballmania”, de Leonardo Affonso Pereira, e “Trabalho, lar
e Botequim”, de Sidney Chalhoub, é uma boa forma de entender
um processo que juntava o trator, como instrumento de remodelação
da cidade, e a arma ideológica da divisão da cidade em duas, prévia
da “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura, e das UPPs (Unidades de
Polícia Pacificadoras) da dupla Cabral-Paes. A percepção da
popularização do futebol como forma de purificação social era
clara: só esbarrou na estranha mania de romper com planos que o
povão tem. O moderno futebol dos Sportsmen, que iria varrer
a indolência ibérica e incluir na alma do povo a civilização
inglesa e francesa, foi antropofagicamente transformada nos “sururus”
esportivos das praças, terrenos baldios e praias, ofendendo o
nariz empinado de uma elite que se pretendia burguesa e controladora
de um Rio que teimava em se virar para sair do cordão de isolamento
que separava a “Cidade Aquilombada” da “Cidade Aburguesada”.
E um dos meios utilizados pela população para esse rompimento foi o
irônico e moderno futebol.
Mais de cem anos depois, essa ironia
se torna uma espécie de 18 Brumário do Rio de Janeiro, com a farsa
ganhando forma na realização de antigos sonhos, com a ordem sendo
distribuída a pontapés seletivos na bunda de uma população cada
vez mais lançada nas distâncias higienizadoras dos subúrbios, com
a cidade sendo pontuada de fronteiras econômicas via aluguéis e
preços e com o moderno e popular futebol tornando-se artigo de luxo
para uma elite que tem nojo de trem, da hora do rush e que acha o uso
do transporte público uma ofensa pessoal. As vésperas dos eventos
$esportivos$, edita-se um “bota-abaixo” pós-moderno de Pereira
Passos, com Vilas Taboinhas e Gamboas sendo tomadas por uma burguesia
saudosa da antiga cidade aburguesada e da proximidade de uma corte
inexistente, a cidade e o país vivem a retomada pela elite de seu
sonho de consumo, o futebol dos
Sportsmen, dos negros e dos
pobres sendo atores somente no palco, mas fora das arquibancadas, com
o fim das gerais, dos ladrilheiros, do Beijoqueiro e de outros
personagens populares que invadiam maracanãs sem a pompa e a
circunstância dos
playboys de Playstation.
O Rio e o Brasil globalizado entram
no clube do espetáculo da construção civil, apelidado de Copa do
Mundo; nessa “modernização” do futebol como elitização do
público e entretenimento, o
Futebusiness, com suas estrelas
globais hollywoodianas. Nesta fase de abertura de novos mercados e
novos canteiros de obras mundiais, o projeto de lucro do capital
“coincidentemente” procura países cuja “civilização” não
seja atingida pela fome de cifrões. Assim, as escolhas de Catar e
Rússia para sedes de copa do mundo não são fatos isolados. A
construção de estádios ditos arenas, com poltronas no lugar de
assentos de arquibancada, diminuição de público, aumento do preço
dos ingressos – ou seja, na transformação do estádio numa grande
sala de estar para um público de classe média consumidor
de
pay-per-view – são fatos primos, irmãos. Lá como
cá, o produto não é mais pra qualquer bico.
A FIFA, com seu poder da grana e da
modernização exclusiva, busca quem pode se dobrar, para triplicar o
lucro, as leis, as tradições e as vontades. A Europa já não tem
espaço para isso e, mais contestadora, perde espaço para quem tem
muito que gastar e nada a explicar. Por isso, em sequência, Brasil,
Rússia e Catar como hospedeiros do parasita FIFA não é
coincidência. A aceitação de governos e elites do projeto também
não, já que o futebol é apenas a fumaça que esconde o trânsito
da economia entre pernas, gols e paixões, e faz do preço dos
ingressos arma de exclusão e de transformação do público em
consumidores diferentes daqueles que construíram a cultura do
futebol.
Sai o torcedor de arquibancada, amor
e bunda no cimento, e entra o sujeito do sofá e ar-condicionado que
aceita, pelo conforto, a transformação do futebol em ópera, com
DVD nas poltronas-estádios como salas de estar. Assim,
adios
para o povão que vê Globo Esporte e lê “O Dia” na banca, sem
comprar, pra ver quem o time contratou. Quem o substitui é o
comprador de
pay-per-view, que quer sentir-se em casa ao
entrar no estádio e paga por isso.
O ingresso caro financia essa
frescura e esta é a concepção do futebol-entretenimento,
apartado de sua história e de sua cultura, numa geleia geral,
universal, “moderna” e capitalista, tal qual os filmes, as boates
e as músicas, na pasteurização da aldeia global. É um retorno a
1908, no Brasil e no discurso do moderno como sinônimo de elitista,
excludente, retomando o futebol como arma da elite para educar um
povo “insalubre”, como ela o via, negro demais, pobre demais.
Porém, agora pela força da grana que ergue e destrói coisas belas,
se está conseguindo tirar o comum, o pobre e o negro do estádio, e
colocando em seu lugar torcedores modernos, iguais, na Inglaterra ou
no Maraca.
Torcedores modernos são aqueles que
podem e querem financiar um entretenimento globalizado, semelhante ao
cinema, ao teatro, ao show da Madonna. Sem nenhuma preocupação com
o que se faz daquilo que é a paixão de tantos; sem muita
preocupação em como se faz o prato que lhe é servido, feito à
custa do dinheiro do mesmo povo que é excluído do estádio; sem a
menor preocupação com o que foi feito do povo que ali vivia e de
com a construção do novo se pareceu com a remoção do velho na
Belle Epóque tupiniquim.
Esse futebol é o Futebusiness,
primo do futebol Sanitário de Pereira Passos e da elite fluminense
que queria ver-se livre dos Sururus da Gamboa. E iludindo a patuleia,
furtando-a na verba e na cultura, devorando-a sem cerimônia na
destruição pasteurizada do entretenimento que mata aqueles que
alimentaram instituições com seu grito, bandeiras, movimentos e
grana, e que hoje foram removidos das casas e do jogo, que se
transforma numa ópera chinfrim com preceitos televisivos. Enquanto o
mundo explode as buchas, negras e mulatas caem com a retomada da
cidade aburguesada, desigual e elitista. Seus quilombos erigidos da
fragilidade de nossa divisão se perdem. O futebol assume novamente o
papel de arma de exclusão, da educação que extermina sururus,
eternizando uma sociedade centenária e cruel.