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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Solucionática - O gol do Danilinho


Por Victor Coelho

No livro Veneno Remédio: o futebol e o Brasil, José M. Wisnik destaca a ideia de que o futebol se distinguiria de outros esportes coletivos (como basquete ou vôlei) por conta da maior dinâmica do jogo: jogadas mais imprevisíveis (comparar com as jogadas do vôlei, onde se destaca mais a eficiência na execução de jogadas-modelo), não limitadas pelo tempo máximo de conclusão de jogada de ataque (como é no basquete). Somente o futebol permite mais que simplesmente dizer como foi a eficiência dos times ou sobre quem fez muitas cestas de três ou a enterrada mais brutal: o futebol permite que se conte histórias sobre o jogo, onde uma análise pode se configurar numa crônica, por exemplo.

No caso do último jogo do Galo, vitória de 1 x 0 sobre o Corinthians pela segunda rodada do Brasileirão de 2012, o gol de Danilinho me lembrou da imprevisibilidade, de uma maneira que me fez pensar também, novamente, no futebol como um tipo de arte, sem cair no clichê do “futebol arte x futebol feio” (falsa polarização pois defender em bloco também é um tipo de arte tanto quanto um drible fenomenal). 

O jogo era bastante disputado, o Corinthians – time encardido pelo entrosamento e pela moral de ser o atual campeão brasileiro e semifinalista da Libertadores – considerado favorito mesmo jogando contra o campeão mineiro invicto, na casa do adversário. O Corinthians não conseguia impor o domínio do jogo, mas chegava com mais perigo. Jogo tenso e bastante disputado, com defesas levando vantagem sobre os ataques. Tudo poderia acontecer.


E algo aconteceu. O time do Galo foi para o ataque, a bola no campo do Corinthians, até que chega aos pés do zagueiro Réver, que vê o baixinho Danilinho se livrando da marcação, na entrada da área. Como autêntico armador - que o time carece - faz passe de categoria, pelo alto, pegando a defesa do Corinthians desprevenida, incluindo o goleiro Cássio, de quase dois metros de altura.
Enquanto a bola percorria sua trajetória pelo ar, expectativa. O que faria Danilinho? Tentaria dominar a bola com o peito para depois tentar o chute, quando certamente daria tempo de o(s) zagueiro(s) ou o goleiro chegarem na marcação? Tentaria tocar de cabeça para um companheiro? Chutar para o gol de primeira seria muito difícil por conta da trajetória da bola, ao mesmo tempo descendente e alta, o que por sua vez, além de impossibilitar o chute de primeira, também impedia uma cabeçada firme. A expectativa naqueles longos segundos era aumentada pela dúvida pela posição do meia-atacante: estaria impedido?


Então o inesperado. Danilinho tranquilamente espera a conclusão do passe, observando a bola. Afasta-se para trás para que sua posição corresponda com a trajetória da bola. Mental e instintivamente calcula sua (da bola) velocidade, peso, sua distância (a dele próprio) com relação ao gol. Então, quando a bola chega, uma leve cabeçada, e apesar da pouca distância entre jogador e gol, a bola sobe de novo ao ar e encobre o gigante Cássio, que apenas observa, semiagaixado, estupefado e rendido, a bola fazer o caminho descendente para encontrar a rede. Delírio da Massa.


Naquela pequena fração de tempo, Danilinho, que ainda apresentava um futebol aquém do que se espera dele, tornou-se um gigante pelo autodomínio, confiança, foi manipulador das leis da física, senhor da matéria de seu corpo e da bola, foi o gênio criador, ponto metafísico naquele microcosmo formado por arquibancadas, gramado, traves, por corpos e mentes na disputa entre dois times. Provou que o futebol é uma maravilha, apesar do esforço que fazem para estragá-lo. 




terça-feira, 17 de abril de 2012

Leiteria - Por uma arte Libertadora!

Futebol Arte é uma categoria estranha pra mim. Como zagueiro fui muito mais um amante de belíssimas e difíceis roubadas de bola, de carrinhos, de camisas rasgadas talvez de alguma violência leve do que de dribles e lançamentos.

Em meu blog anterior, sacrificado pra Nelson, inclusive havia criado a categoria de zagueirante, que é o amante do Futebol-Marte, aquele futebol criado em leite de onça com sangue de novilho virgem, ou de atacante adversário, dependendo da cultura.

De alguma forma a loucura do jogo sempre me foi mais importante do que a beleza dos passes e dribles, a pancadaria, o escorregar, o grito, o suar, a fúria, sempre foram muito mais ligados no meu padrão estético que dribles e passes. Não que não goste da arte, mas ela em si, ela estética, sem o furor do peso de um estádio rosnando, de pedras jogadas no batedor de escanteio, sempre me foi estéril.

Admiro quem curta a arte e sinta saudades de uma idade do ouro da bola, mas sinto  uma paixão enorme pelo futebol como um jogo onde perco a razão ao torcer e grito, e urro pela bola roubada, pelo gol feito meio entre uma mistura de bola roubada com contra ataque em velocidade, defesa bem postada e mortal. Sinto uma paixão enorme pela imensa presença do estádio na Libertadores, uma competição onde a organização é sim falha, mas antes de mais nada respira uma cultura de participação que não existe em outro lugar do mundo.Por isso o Barcelona me irrita, a Champions League me irrita.

O Barcelona me irrita por ser um belíssimo conjunto de uma arte tediosa e a Champions League me parece uma ópera esteticamente bela, com atores focados, mas falta o público, aquele simpático torcedor que está no campo com cada alvo de sua paixão.

Gosto do Futebol-Marte, construído em uma luta intestina à América e desenhado com o nome de guerreiros que venceram a metrópole Espanha e não com o nome de Copa dos Campeões. A arte do Futebol-Arte está ali, está presente no futebol do Deus da guerra, mas vestindo armaduras e diante de torcedores e não espectadores, de guerreiros do grito, auxiliares dos guerreiros da bola.

Obviamente não desprezo o futebol europeu ou sua técnica e nem acho que as pedras jogadas nos batedores de corner são coisas admiráveis, mas aprendi que elas existem e que a ausência delas não faz superior a estética operística, mantida até pelos patrocinadores, que a Champions League adotou como modelo. 

A Libertadores precisa se organizar, reduzir a violência e permitir a torcida, o grito, a fúria da  paixão gritada, que desorienta, mas não pode virar essa espécie de teatro que virou a Liga dos Campeões da Europa.

Que nossa arte não seja zagueirante, agradando completamente este ogro, eu aceito, mas que nossa arte respeite seu nome e seja Libertadora.