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terça-feira, 10 de julho de 2012

O Campinho da Aldeia Velha - Voltou "daquele" jeito

Por Victor Freire

Paysandu x Luverdense
O imbroglio jurídico em que se transformou a série C do Campeonato Brasileiro de 2012 está longe de ter um fim, mas ao menos começou, com o Treze FC e o Rio Branco FC com asteriscos ao lado dos seus nomes. Após duas rodadas, vamos ao que interessa: de acordo com o artigo na Wikipedia, uma fonte mais fidedigna que o www.futebolinterior.com.br, temos o G4 do grupo 1 composto por Paysandu, Icasa, Salgueiro e Águia de Marabá, respectivamente com 6, 4, 4, e 4 pontos. O Santa está na 6ª colocação, com 2 pontos. Na rebarba, Fortaleza, que fez uma blitz mudança de técnico após o último jogo, e o galo da Borborema, que promete ser o bonus stage deste campeonato.

Tupi x Duque de Caxias
No grupo 2, os cariocas Macaé e Madureira estão no topo, com 6 pontos cada, seguidos pelo Chapecoense e pelo Santo André, ambos com 4 pontos. Em último, empatados, Oeste-SP e Tupi, sem nem um ponto. Deste grupo não sei muito, mas sei do primeiro: o Salgueiro vem surpreendendo e é um sério candidato ao ascenso, e o Paysandu parece ter recuperado o gosto pelo jogo. O Águia de Marabá começa a mostrar que vai ser aquele time pequeno chato de vencer, e o Santa, bem...

 *     *     *

O Santa merece um capítulo à parte. E ele é motivado, claro, por uma das personalidades que mais frequentemente aparecem por esta humilde coluna: Zé Teodoro. Zé fez duas partidas medíocres até então. Na primeira, um time apático e sonolento cedeu preciosos dois pontos ao empatar com o fraco Guarany de Sobral. Resultado aceitável segundo o coach coral, uma opinião da qual a torcida não partilha. Mas tudo bem, releve-se, foram férias forçadas por mais de um mês além do necessário. E vamos em frente.

Eu acompanhei pelo rádio (que remédio!) a segunda partida, em Salgueiro, cidade a cerca de 510 km do Recife, no sertão pernambucano. O que deu pra perceber foi que mais uma vez o time bateu cabeça e estava inseguro, como aconteceu, aliás, em muitas partidas do pernambucano. Se camisa pesa e afeta jogadores inexperientes, o goleiro, Diego Lima, parecia estar usando uma cota de malha feita com chumbo. Os zagueiros pareciam conversar entre si: um falando mongol e o outro, zulu arcaico (e quando falavam com os volantes, era em norueguês bokmal). Do meio pra frente, uma diarreia mental "crássica". O carcará abriu logo dois pra nego se orientar.

O jogo mudou no segundo tempo, mas não por mérito tático. Luciano Henrique e Dênis Marques tiveram, cada um, uma ideia digna de Arquimedes na clássica final do mundial de filosofia de 74 e fizeram 2 gols, empatando a partida. Não fosse a desorganização tática vista anteriormente, voltaríamos pro Recife comemorando e ainda no G4.

O que me deixa confiando um pouco mais no Santa é uma das principais qualidades de Zé Teodoro: a sorte. Zé nasceu com o fresado virado pra dona lua e ganhou 2 títulos estaduais e um acesso desse jeito. Bem, até o momento em que ela resolve abandoná-lo, como aconteceu no Fortaleza, alguns anos atrás. Espero que ela esteja longe, bem longe de voar para outras bandas. Mas seguro morreu de velho, por isso, abra do olho, seu Zé!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Campinho da Aldeia Velha - As lições que Cruijff dá


 Por Victor Freire

Meu último texto sobre Zé Teodoro no Santa Cruz acabou mexendo com as teias do destino, ou causando uma falha no código da Matrix: foi eu escrever para o dito cujo perder um jogo. Ganhou uma penca de outros, é verdade, mas continuou cometendo erros primários, que nos custou um clássico fácil contra uma coisa do mangue vinda de uma derrota vergonhosa para o Paysandu (para o Paysandu, porra!) e uma primeira partida de semifinal contra um Salgueiro de nível técnico fraquíssimo.

Zé Teodoro segue firme na sua decisão de continuar usando 3 zagueiros, 3 volantes e manter a postura do time recuada. Dando o devido desconto de quem acompanha os jogos do Santa de (muito) longe, a equipe parece raramente cruzar o território além da linha de meio campo, onde até mesmo os fracos podem ter vez, desde que tenham ousadia. O resultado é um time burocrático e até mesmo burro: quando ataca, o faz de forma desorganizada e não-efetiva. Quando defende, que deveria ser o seu forte (que remédio!), o faz de forma desorganizada também e aceita, complacentemente, um ataque adversário que seria facilmente evitado.

O comandante coral poderia tomar algumas lições com um jogador e técnico que, a meu ver, revolucionaram o futebol mundial: Hendrik Johannes Cruijff. Fala-se muito do carrossel holandês de 74 que encantou o mundo, mas suas raízes estão no Ajax de 69 a 73, vitorioso e campeão mundial de clubes em 72. Embora Cruijff tenha sido apenas jogador nesta época (o técnico era o também genial Rinus Michels), ele foi peça crucial na aplicação do sistema em campo, e repetiu a dose quando foi técnico.

Todo mundo fala de como os jogadores holandeses se dispunham em campo sem posições físicas, rodando e confundindo adversários, o que é uma definição simplória do que é, de fato, o futebol total. Desse jeito, parece que todo mundo joga na louca, de forma pior que futebol de zona rural. Poucos estudiosos (e não inventores, viu, seu Zé?) realmente pararam pra estudar o que de fato é este sistema tático: ele é simples, porém não simplório; proativo, mas não necessariamente atacante; de pressão, mas não displicente.

O sábio de Amsterdam dizia, de uma forma que considero muito correta: “O futebol simples é o mais bonito. Mas jogar simples é a coisa mais difícil”. É o que diferencia os verdadeiros gênios da tática de qualquer outro treinador. E um dos muitos sucessores espirituais de Cruijff no futebol catalão (onde este se estabelecera nos anos 80 e 90), Pep Guardiola, escreveu em 2007 a respeito do Barcelona, conhecido por aplicar um futebol parecido: “No Barcelona se entende que se pode vencer de mil maneiras. Todas são válidas. Todas funcionam. Não é preciso dizer muito mais que isso. Mas também se compreende que não se pode vencer e repetir o modo de vencer de uma forma que não parece certa pra você – e para os diretores, preparadores, jogadores, amigos e todos aqueles que vão assisti-los toda semana”.

O sistema de futebol total não é perfeito, no entanto. Beckenbauer e a Alemanha de 74 souberam como pará-lo, com uma marcação forte em cima daquele que era seu pivô. A evolução dele, o chamado "tiki-taka" espanhol, foi parado, ironicamente, pela marcação fortíssima do também alemão Bayern München. Isso, no entanto, não desmerece a tática, e tampouco as máximas de seus defensores, que deveriam ser melhor observadas nestes tempos modernos.

terça-feira, 13 de março de 2012

O Campinho da Aldeia Velha: Estabilidade estática relaxada

Por Victor Freire de Carvalho

Um dos maiores avanços na ciência aeronáutica foi o desenvolvimento de aviões que eram aerodinamicamente instáveis, associado a controles eletrônicos de áilerons e élevons, as superfícies que o fazem movimentar-se no ar. O que parece ser uma receita para o fracasso (como realmente foi, nos primeiros ensaios de vôo do F-16 americano) na verdade resultou em aviões mais manobráveis e capazes de fazer malabarismos antes impensáveis no ar. Tecnologia iniciada com os americanos, teve nos russos o seu ápice, com o desenvolvimento do pouco ortodoxo Sukhoi Su-47 “Berkut”.


É impossível, ao menos pra mim, deixar de ver paralelos entre um arrojado avião aerodinamicamente instável e as táticas usadas pelo técnico Zé Teodoro no Pernambucano deste ano. E não dá pra deixar de ver semelhanças com ensaios de alguma máquina maravilhosa, porém inédita e sujeita a falhas. É o famoso preço do pioneirismo.

Vejam bem: Zé tentou fazer funcionar, no início do campeonato, um 4-4-2 que se mostrou manco, com resultados insatisfatórios. Eu não me recordo bem agora, mas Zé deve ter usado em alguma ocasião um 3-5-2, que vou desconsiderar por enquanto. Fato é que a coisa não estava andando por uma série de fatores, sendo o principal a qualidade, a motivação e a concentração do nosso elenco.


A necessidade é a mãe da invenção, e hoje, digo, entendo, de certa forma, o porquê de Zé ter criado seu atual 4-3-3. O esquema tem potencial, embora esteja muito sujeito a erros. É uma aposta alta, mas Zé deve ter entendido que os eventuais benefícios compensavam os riscos. Obviamente temos problemas, como a má vontade de jogar que Leandro Bambu vem demonstrado, a falta de aplicação pela qual Weslley e Chicão passam, os quilos extras de Carlinhos Bala e a insistência de Luciano Henrique em achar que é um jogador carioca – somente no que toca às baladas e ao álcool.

No entanto, sempre resta a esperança de que os dirigentes do Botafogo usem de sua inteligência e realizem uma grande contratação, levando embora por custo zero Flávio Caça-Rato e Branquinho, numa tacada só.